Esses dias me peguei observando a vida. Parei por uns momentos e comecei a reparar as situações do dia-a-dia como se eu não fosse participante dele. Fiz isso como se estive exilado do mundo, vendo a vida de cima, suspenso pela pausa.
Estive pairando por aí. Me sentindo eterno e onipresente.
Não vivenciava o tempo de acordo com a ordem cronológica própria, pois não via as situações relacionando-as com um passado carregado de emoções. Não lembrava da minha origem, não me sentia envelhecer, não tinha saudade, nostalgia, tampouco tinha medo da morte. Observei a vida como um juiz. Seguro de mim e imparcial, muito embora atribuía os devidos valores às relações e aos hábitos, segundo uma ética própria.
Também não me sentia pertencente a nenhum lugar, mas conseguia ter o privilégio de presenciar diversas situações ao mesmo tempo (que tempo?).
Eu presenciava. Mas não era uma presença que ocupasse um espaço, não era algo ligado a matéria. Eu apenas estava lá, e às vezes com a sensação de que algumas pessoas me percebiam no ambiente, mesmo eu tendo a certeza que eles não me viam. Eu presenciava. Mas não era no tempo presente, nem sabia qual era a relação entre passado, presente e futuro. Eu apenas pairava sobre tudo e todos. Via as situações sem precisar recorrer a minha memória, nem me esforçar para me lembrar da seqüência temporal das coisas.
Nesses dias comecei a reparar mas em como as pessoas gastam o seu tempo. Quantas coisas poderiam ser mais justas e verdadeiras; que os sentimentos poderiam ser mais reais e as relações mais duradoras. Vi também que não fiz uma boa escolha em ter parado meu tempo e desespacializado a minha presença, pois a cada situação percebida eu revia todos os meus valores e me deparava com o vão existente entre minhas ações e minha consciência. Percebia, portanto, que se eu fosse guiado pelo que me ensinam ser certo ou errado, ou pelo que julgo de forma não emocional, nem se eu tivesse matéria e cronologia, seria capaz de viver com essa gente.