Ora, se toda existência consciente é uma disputa de contrários, não tenho poder de evitá-la, mas sou capaz de alimentar meu caráter através de toda a dor e de toda perda. Duvido que cada ser autônomo deva ser capaz de gerar sua própria felicidade, ou de garantir sua própria história alheia às dores. E se, por um acaso natural, um outro ser externo for capaz de elevar meus sentimentos a plenitude, ficarei bem longe dele. Luto para que a responsabilidade de fracasso seja exclusivamente minha. Não que seja masoquista, mas se fosse o contrário, poderia, portanto, atribuir os resultados a alguém que não existe, me prendendo num campo metafísico. Como não me disponho a isso, sou levado pela mínima coerência a enfrentar os meus juízos. Antes disso, pior, sou forçado a descobrir os meus juízos.
Bom, se é descartada a hipótese metafísica, resta-me procurá-los em alguma tradição. E as primeiras tradições que me apresentam são as familiares. Neste sentido, me vejo muito distante de várias delas, não participo dos ritos mais tradicionais da família, justamente por eles serem baseados em certezas do espírito. Daí entro em outra questão.
Descoberto os meus juízos, enfrento-me todos os dias a fim de me responsabilizar sobre tudo que pude colher de podre. Mas ao invés disso me fazer um perdedor, me oferece a chance de ser uma pessoa melhor, pois tenho ciência de que toda história arrebenta algumas expectativas e que a existência seria nula se não houvesse suas perdas.
Bento Buendia
escrito em 10/03/2011
adaptado em 01/2012.
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